quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Dinâmicas de Leitura em sala de aula

Não sou professora e não tenho experiência em sala de aula, mas, recentemente, fui convidada a participar de uma mesa onde deveria falar para professores, bibliotecários e promotores de leitura sobre a importância da leitura literária na sala de aula.
Pensei que tanto ou mais relevante do que a minha experiência como escritora e ilustradora de livros para crianças e jovens - e como mãe que estimula a leitura das filhas - é a minha experiência como leitora apaixonada que sou.
Eu deveria falar de LIVROS e LEITURAS, mas estava mais interessada em falar sobre pessoas: sobre LEITORES e suas relações com o livro.
Este texto é uma tentativa de registro das ideias que expus nesse encontro com o objetivo de questionar, fazer pensar e também sugerir algumas dinâmicas.
Para começar a conversa, parto do óbvio: TODOS SOMOS PESSOAS DIFERENTES – o que, obviamente, é muitas vezes esquecido, pois é da natureza humana a tendência a generalizar.
Somos diferentes porque, embora humanos e vivendo no mesmo planeta, temos, cada um de nós, diferentes histórias, diferentes personalidades, diferentes formações. Passamos por diferentes experiências. Vivemos em diferentes contextos sociais e familiares. Temos, cada qual, nossas predileções e nossas dificuldades. Sentimos, vemos e percebemos o mundo de diferentes maneiras. Temos diferentes pontos de vista. E, por fim, somado a tudo isso, estamos vivendo, cada qual, momentos diferentes da nossas vidas. E aqueles, que trabalham com livros e leituras, PRECISAM RESPEITAR ESSAS DIFERENÇAS!
Porque essas diferenças irão transparecer nas nossas relações com o livro. Alguns são leitores devotados, outros apenas apreciam comedidamente e outros precisarão de muito estímulo para se tornarem leitores de literatura.
Diferentes leitores – mesmo que tenham idade aproximada, estejam na mesma sala/ série/ escola/ bairro/ cidade – precisam de diferentes tipos de leituras e dinâmicas para poder, quiçá, usufruir do tão afamado, e difícil de encontrar, “prazer da leitura”.
Por isso, as escolhas individuais dos leitores, por um ou outro livro, devem ser não só respeitadas como estimuladas.
Coloque-se, caso não tenha vivido a experiência tão comum, no lugar do aluno, que terá de ler por um ou dois meses, junto com toda sua turma, o livro determinado pela sua professora, independente da sua vontade. Por mais interessante que possa ser esse livro, a simples imposição dele como leitura obrigatória criará nesse aluno alguma resistência, em maior ou menor grau. Pois é... E para truncar ainda mais essa leitura, este aluno terá que realizar trabalhos e/ou deveres sobre essa leitura.
Agora, imagine-se no cinema, assistindo um filme e sabendo que ao sair da sessão você terá de responder a um questionário sobre o que lhe agradou ou desagradou na história, qual a mensagem do filme, qual o seu personagem preferido e porque, qual o momento mais emocionante, etc. Lembrando: suas respostas serão avaliadas e valem pontos! Será que você conseguirá relaxar para desfrutar e “mergulhar” no filme?
Tenho vivido como mãe a experiência de ver minhas filhas leitoras, totalmente desestimuladas em relação as leituras escolares. Basta colocar o livro como leitura obrigatória para que ele se torne chato. E o pior: paralelamente a leitura, elas devem preencher as famosas fichas de leitura e os terríveis questionários que dissecam a obra a tal ponto de perguntarem aos alunos coisas sobre as quais o próprio autor sequer saberia responder! Sem exagero! Ninguém merece essa tirania! Muito menos as nossas crianças!!!
Que me importa, e agora falo como escritora, que meus leitores saibam quantos são os personagens dos meus livros, seus nomes, idades e profissões? Ou qual a seqüência correta das falas que aparecem desordenadas na folha? Ou ainda o que EU, autora, quis dizer com uma frase pinçada do meu livro????!!! Por favor, não importa o que eu quero dizer! O que importa é o que meus possíveis leitores podem entender ou pensar a partir daquilo que eu disse ou às vezes apenas sugeri ou provoquei.
Enfim, o que quero dizer é que, a dinâmica como ainda se dá de adoção de livros em sala de aula está longe de ser a maneira mais democrática, humana e produtiva de incentivar a leitura e a cultivar leitores.
Critico duramente as fichas de leitura que, engessam as múltiplas interpretações e que, transformam a leitura literária em dever de casa ou avaliação. Elas destroem todo e qualquer prazer que o leitor possa ter encontrado na leitura de um livro.
Assim como o uso equivocado da proposta de “multidisciplinaridade” aplicada a leitura literária, transformando-a em “matéria-prima” das aulas de ciências, português, matemática, geografia, etc. Para introduzir conteúdo informativo, temos os milhares de didáticos e “paradidáticos” disponíveis no mercado.
Literatura não é para ensinar conteúdo, é para fazer pensar, sonhar e questionar.
Essa é a riqueza e a mágica da leitura literária: TOCAR A PESSOA POR TRÁS DO LEITOR!

Como disse, na primeira linha deste texto: não sou professora. Mas sou curiosa, observadora e atrevida a ponto deixar aqui algumas sugestões de dinâmicas de leitura que bem trabalhadas nas escolas, costumam render bons frutos.

Ciranda de livros
Conheci a “ciranda literária” da forma que descrevo aqui através da professora Kátia Vieira que leciona no Colégio Sion do Rio de Janeiro. A dinâmica consiste em adotar em uma única turma a leitura de 5 ou 6 títulos diversos (indicados pela professora) e trabalhá-los simultaneamente por um determinado período. Para isso, cada aluno, conforme solicitação da professora, compra um exemplar de um dos títulos indicados e assim teremos de 5 a 6 exemplares de cada título. Num dia combinado da semana, os alunos levam para escola seu exemplar e todos os livros são colocados sobre a mesa da professora e cada aluno terá a liberdade de escolher o título que irá ler naquela semana. Para evitar maiores conflitos, na primeira semana da ciranda a professora pode estabelecer que cada um lerá, em primeiro lugar, o título que foi adquirido por ele e, nas semanas seguintes, cada um poderá escolher o livro que quiser. Após a leitura, quando for trocar o seu livro, o aluno é estimulado a dividir com os colegas o que achou da leitura ou contar algo sobre o livro que leu. Ao final de um mês e meio, cada aluno da turma terá lido todos títulos indicados e cada poderá escolher um deles para apresentar um trabalho que poderá ser, por exemplo, uma redação, uma HQ, um cartaz, uma encenação, uma pesquisa, um reconto ou uma poesia, entre tantas outras possibilidades. Terminada a ciranda, cada aluno escolhe qual título quer levar para casa - não necessariamente o adquirido por ele, desde que consiga negociar a troca com os colegas.

Troca-troca de livros
No troca-troca de livros, cada aluno traz de casa um livro seu, já lido, que gostaria de trocar. Nesta atividade a capacidade de negociar com o colega a troca do seu exemplar pelo título que lhe interessa terá como base a “propaganda” que cada aluno é capaz de fazer do livro que lhe pertence: para tanto precisa tê-lo lido e saber dizer oque nele pode interessar ao colega. É necessário estabelecer algumas regras para que a dinâmica funcione bem, como por exemplo: só trazer livros em bom estado, adequados a faixa etária e evitar livros muito elaborados ou demasiado simples.

Grupos de Leitura
Leitores apaixonados gostam de compartilhar suas experiências de leitura. Por que não estimular os alunos a criarem um grupo de leituras em que poderão trocar idéias e pareceres sobre os livros que leram? Pode-se dividir a turma em grupos e deixá-los escolher um ou dois títulos para leitura em casa e posterior bate-papo e troca de idéias em sala. Cabe ao professor sugerir diferentes estilos literários: poesia, contos, crônicas, clássicos, livros de mistério, terror, comédia...

Multimídias
Filmes e peças de teatro baseados em livros, poemas musicados ou letras de música que são pura poesia, séries de tevê que recriam clássicos da literatura são sempre estimulantes para despertar o interesse por uma obra ou um autor. Estas mídias podem ser o ponto de partida ou o fechamento de uma dinâmica de leitura.

Contação
Por mais que as crianças dominem a leitura, a contação é uma ferramenta importantíssima para despertar o interesse por uma obra. É do ser humano gostar de ouvir histórias. Nossos ancestrais faziam isso em torno da fogueira, em rodas, em saraus. A leitura não precisa ser dramatizada, mas envolvente, despertando a curiosidade e prendendo a atenção. Capriche no ritmo, na entonação e escolha histórias que você gosta porque é preciso gostar do que se vai ler para poder contagiar o ouvinte.

Biblioteca Viva
Bibliotecas eram, até pouco tempo, o ambiente das pesquisas escolares, local de estudo, silêncio e concentração. Hoje as pesquisas escolares são dinâmicas – antigas enciclopédias de dezenas de volumes deram espaço aos computadores, às revistas especializadas e aos CDs e DVDs, entre outros recursos. A biblioteca escolar assumiu assim, um outro papel: espaço de estimulo a leitura e ao desenvolvimento de leitores. Para tanto a biblioteca atual deve ser um ambiente acolhedor, um lugar onde os alunos possam ter livre contato com o livro. Observá-los, manuseá-los e folhá-los. Para tanto deve-se oferecer aos alunos – principalmente aos menores – a oportunidade de ver a capa dos livros ao invés de mantê-los enfileirados e comprimidos lado a lado em inacessíveis prateleiras. Cestas ou caixas com livros, distribuídas pela sala, na altura dos olhos e das mãos, funcionam muito bem. Um tapete com almofadas pode funcionar melhor do que mesas e cadeiras. É preciso ter liberdade de escolha, de gostar ou não e de mudar de ideia sobre um livro – a qualquer momento.
Na biblioteca de uma escola, aqui do Rio de Janeiro, me encantei com um mural de dicas de leitura elaborado pelos próprios alunos. Ali eles “publicavam” suas opiniões sobre os livros que haviam lido e gostado, ou não. Eram pequenos bilhetes para os colegas sobre curiosidades e descobertas sobre autores, personagens, coleções... Segundo a responsável pela biblioteca, o mural funcionava muito bem porque um livro indicado por um colega que tem interesses semelhantes é quase que garantia de boa leitura. Em tempos de internet o mural pode ainda ter continuidade no site da escola.
Também acho essencial que os alunos tenham liberdade de levar livros para casa, como empréstimo, estendendo assim o prazer da leitura e das suas descobertas. E podendo, inclusive, compartilhá-lo com sua família. Uma amiga me contou outro dia da sua satisfação ao começar a freqüentar, junto com a filha, a biblioteca municipal do seu bairro, cujo. O dia de visitar a biblioteca e de exercer a livre escolha da próxima leitura era aguardado com expectativa por ambas.
Bibliotecas vivas tem portas abertas a alunos, professores, funcionários da escola e as suas respectivas famílias oferecendo um acervo atual, diversificado e bem conservado
Para finalizar, deixo aqui algumas palavras da querida Tatiana Belinky:
“Espalhe os livros pela casa toda mas nunca mande a criança ler. Mandar é vacinar contra. Deixe a curiosidade natural da criança agir. Nunca diga ‘esse livro não é pra você’, deixe-a descobrir por si só”.



Marilia Pirillo
Escritora e ilustradora de livros para crianças e jovens.

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